sábado, 11 de fevereiro de 2017

Ashes, I am

O céu é cinza. Cinza é o que sinto por dentro e o que sou por fora. Cor da solidão, que o meu tacto sabe de cor. A partida apresentou-nos e desde aí tornámo-nos uma coisa só. Coisa feia, desregrada, sem princípio nem fim, sem ritmo nem batida. Como nós dois fomos um dia - seres sem alma, seres sem corpo, seres sem voz. A voz calou-se há muito tempo, eras tu a criança que nunca deixaste de ser, sem motivos para crescer, como a semente que germinámos. A luz do sol não lhe chegou, nem a terra, nem a água.
Para quê crescer se o sol não vai brilhar nunca mais? A saída é ali, o que e fácil está sempre mais a jeito.

- O que é fácil aos fracos se destina, dizia alguém quando o tecto do mundo ainda era de todas as cores. O que é fácil não traz recompensa feliz. No fundo somos todos caçadores de tesouros. O que nos dá alento se não o que a vida deixa escapar sem perceber e o que tenta recuperar aflitivamente?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

 

Queria arranjar palavras para descrever o ridículo das coisas que acontecem na minha vida

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

.

 

Letras de fumo tendem a aparecer quando existe música num cigarro.

a música propaga-se e deixa perfume.

sabes que é a verdade:

Todos parecem olhar-te.

- Eles olham, só não te vêem.

Não vêem porque há coisas que não se deixam ver.

- Palavras, há muito que não se deixavam ver também

(long time no see)

preenchidas com cor de fumo que assentou numa folha

outrora branca.

E lêem-se.

 

Lua

A luz que estava,

A música que tinhas,

Nua, com consciência

De que um dia tudo acaba.”

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Frio


A porta já não range nem há passos no corredor,
naquele chão já não.
A caneca amarela não fumega mais.
O chá já está frio, arrefeceu
A janela branca ficou aberta
mas a chuva não entra.
Ficou lá fora,
não quis estragar as tábuas
(que a água apodrece o soalho).

A chuva espera,
a chuva não se cansa.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Troncos


As folhas da minha copa esvoaçam. Afastam-se dos meus ramos, como se puxadas por cordas de fumo invisível. Não se vêem. Só se sente o levíssimo peso a deixar os meus braços de madeira, imóveis. E os meus pés que continuam raízes, colados a este chão que não respira nem engole o tempo que este vento empurra e protege como se fosse seu.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

360º

Aqui os dias são todos iguais. A vontade já não existe, nem o sol que brilha me anima. Pelo contrário, o céu embrulhado é o ideal. Casa fechada, vazia, cortinas fechadas, escuro, silêncio. Não há cheiro, não há barulho. Só ruído de quando em vez, e propositadamente imperceptível.
É Verão. Não praia, não rua, não preocupações com o cabelo ou com nada. Não.
Estás longe. A tua ausência é a pior coisa a que alguma vez já estive exposta. Felizmente, ainda fazes o meu telefone tocar de vez em quando. Se não fosse a tua t-shirt amarela com o teu cheiro o meu placebo para iludir as minhas saudades tuas… Acho que já nada seria real ou palpável.
Sou um arbusto.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

I do not love you as if you were salt-rose or topaz,
or the arrow of carnations the fire shoots off.
I love you as certain things are to be loved,
in secret, between the shadow and the soul.
I love you as the plant that never blooms,
but carries in itself the light of hidden flowers.
Thanks to your love a certain fragrance,
risen darkly from the earth, lives darkly in my body.
I love you without knowing how, or when, or from where,
I love you straightforwardly, without complexities or pride,
so I love you because I know no other way than this:
where "I" does not exist, nor "you,"
So close that your hand on my chest is my hand,
So close that your eyes close and I fall asleep.

-Pablo Neruda