segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Os Cinco Sentidos

 

São belas - bem o sei, essas estrelas
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho amor, olho para elas;
  Em toda a natureza
  Não vejo outra beleza
  Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
Será; mas eu do rouxinol que trina
  Não oiço a melodia,
  Nem sinto outra harmonia
  Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
  Não percebe, não toma
  Senão o doce aroma
  Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
  Famintos meus desejos
  Estão... mas é de beijos, 
  E só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - se por certo em que me deito;
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
  Sentir outras carícias,
  Tocar noutras delícias
  Senão em ti - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

Almeida Garrett in Folhas Caídas

Genial!

1 comentário:

Pálinhe disse...

Gostei! Bem bonito! =D