domingo, 3 de maio de 2009

E eis que.

Os meus pés, forçosamente, numa tentativa de razoabilidade, são empurrados para terra.

Mas, mesmo assim, deixo-me (e)levar.

O meu corpo amolece, desmaterializa-se, como se boiasse num mar salgado, ou estivesse mergulhado numa água quente e vaporosa.

Começo vagarosamente a descolar do chão, como se algum fio de sedela exercesse algum tipo de força elevatória sobre o meu corpo imaterial.

Fico leve e os pés abandonam a terra, ligeiros… Primeiro um pé, que se eleva ascendentemente, vagarosamente. Depois o outro, descalço e alvo, começando por elevar o calcanhar do solo, seguidamente dos dedos, que um por um, completam o meu flutuo aéreo.

E deixo de sentir a terra.

Olhos fechados, corpo esvoaçante. Ganhei asas sem forma e voei por emoções longínquas.

Mas, de súbito, algo exterior ao meu íntimo mais puro segreda-me e diz-me.

O meu corpo retoma o seu peso. Os pés, esses atingem novamente o chão, frio e desconfortável. Os olhos abrem, repentinos. O meu lado racional retoma as funções anteriormente adormecidas. Mas eu desperto realmente? Não.

Dentro de mim permanece uma nuvem de Outono que não escurece, mas que me ofusca.

Tento despertar, ficar atenta, racional.

Contudo sou dominada, perturbada, completamente preenchida pelas batidas do meu coração, ou por uma entidade que ainda nem estou certa da sua existência…

E eis que.

1 comentário:

Phil' disse...

Escrever é triste.

Os dedos sobre o teclado, as letras reunindo-se com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza...

O mundo deixa de ser a realidade para se reduzir a quase nada, um puré de palavras, reflexos de um qualquer dicionário.

Todos nos escrevemos não é?
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