segunda-feira, 1 de junho de 2009

Madrugada adentro…

São duas e meia da manhã. Já começam a tornar-se frequentes as horas gastas em divagações pela internet.  Ou pelo estudo. Mas são as horas mais produtivas das minhas vinte e quatro horas.

Estão todos a dormir. E eu sento-me aqui, sinto-me bem assim, com o candeeiro da secretária aceso, de pensamentos fluidos. O Pai ressona, a Mãe já dorme há tempo. Os miúdos também. A televisão está desligada. Que alívio.

Esta é a altura única em que posso desfrutar de um silêncio que esta casa nunca tem para dar. Sinto-me tão bem… (agora o rapaz chorou, chama pela mãe, quer água, eu subo, dou-lhe a água, a minha mãe vê-me, pergunta-me qual é o jeito de ainda estar a estudar e eu confesso. Confesso que estou a ler.)

Supostamente ainda estaria a estudar, tenho teste amanhã. Mas creio que já tenho tudo estudado. Prefiro aprender outras coisas que não se atingem directamente na instituição escola ou com o verbo “estudo”. Digo directamente porque este discurso incute alguma influência da minha mais recente leitura, Aparição, de Vergílio Ferreira, que me foi proporcionada pela obrigatoriedade da exploração da obra no âmbito da disciplina de Literatura Portuguesa.

Já é o segundo livro de Vergílio Ferreira que leio, e claro, espectacular. Sem dúvida, um dos meus artistas favoritos. O que esse senhor escreveu é, sem dúvida, Arte.

Deixou-me a pensar nele, talvez pela complexidade ou pelo labirintismo presente nas frases, que necessitam de ser relidas e repetidas para (ao contrário da teoria do Bexiguinha) serem inteligíveis. Ou pelo desafio que a obra propõe, ou inconscientemente obriga  a quem lê, de se colocar no lugar de Alberto Soares e tentar compreender a que sensação de busca se refere.  Tentar sentir, perceber e identificar-se com as questões da minha, da existência de cada um.

Eu própria fiz um esforço. Senti-me como uma criancinha esforçada que franze a testa e  fecha os olhos com força e deixa a língua escapar da boca e faz muita muita força para atingir algo. Mas não consigo. Nunca fui Alberto.

E irrita-me sentir que estou a desabafar comigo mesma. Tenho pena de não me poder sentir uma espécie de Simone de Beauvoir, uma mulher activa, intelectual, argumentando num círculo de intelectualidade, fumando tantos cigarros quanto quisesse. O fumo acompanha as ideias. Já sou uma repetidora assídua desta expressão. O fumo aglomera as ideias e expele-as...

Desespero, Qualquer dia ponho um anúncio no jornal:

“PRECISA-SE INDIVIDUO CAPAZ DE FALAR DE INTERPRETAÇÃO DE OBRAS DE ARTE, LITERATURA, VIAGENS, NOITADAS, HUMANOS, SEXO, COMIDA E MÚSICA. RELAÇÃO PURAMENTE INTELECTUAL E ARGUMENTATIVA.”

 

Aqui em casa muitas vezes, cultura solidifica-se em torno da vida dos políticos depreendida pelas revistas cor-de-rosa. Ou em torno da enologia e das castas. Ou das notas do filho do outro.

Se calhar é da minha imperdoável idade de dezasseis anos, esta necessidade de profundidade intelectual. Ou então é apenas fascínio pelos génios e a descoberta do real fascínio da comunhão das palavras. Ou tudo junto.

1 comentário:

Laila disse...

Quandi li este texto tive de sorrir. Consegui reconhecer-me um pouco nas tuas frases... quando´, depois das 22h, me deito na cama com o portátil, já sei que não o vou deslargar antes da 1h. Ponho-me a escrever, tal como tu...a escrita parece ser como um vício,...liberta e "escuta-nos".

sim, ás vezes é mais importante encontrarmos a nossa paz interior do que estudar.

Li também os outros textos, admiro-os pela sua profundeza. Tens jeito sim sim (:

beijinho