sexta-feira, 14 de maio de 2010

Lisbon Revisited

O meu despertador toca e a televisão acende sozinha (não, não é magia, a televisão é programável). São seis da manhã… E, por na noite anterior ter ficado até às tantas a ver a entrega de prémios da Sociedade Portuguesa de Autores e um espantoso e estranho discurso de Júlio Pomar, abro os olhos, dou a habitual e hesitante volta de 180º na cama. Espero dois minutos (a preparação psicológica necessária para me levantar a uma hora destas) e arrasto-me até à casa de banho, ainda em pleno estado de dormência. Olhei-me ao espelho e não vi nada porque o sono não deixava os olhos abrir. Desvio o olhar para a janela à esquerda e vejo que ainda é de noite. (quando estou acordada a estas horas, geralmente é porque estou a chegar a casa, nunca porque estou de saída…) Lavo a cara, os dentes e essas coisas todas que todos fazem de manhã mas, sinceramente, mais com o intuito de despertar das incompletas cinco horas de sono que de outra coisa.

Grito lá para cima “Mãe, acorda.” De resposta, chegou-me um murmúrio ensonado de uma mãe ensonada. Enquanto na minha cabeça surgia personificado como um elefante o esforço da minha mãe para se levantar e enfrentar o frio das seis e meia da manhã, patino até à cozinha e abro um dos frigoríficos e, sem demora, atiro para dentro da minha mala – que por vezes parece um saco de entulho – quatro iogurtes, uma banana e uma água do Luso para ilusoriamente me precaver. Isto tudo para não ter de ir cortar pão, barrar a manteiga, estender o queijo, fechar a sandes e ainda, ter de me dirigir a despensa, que fica a 1 metro do balcão da cozinha, para ir buscar prata para a embrulhar.

Posto isto, começo a entrar em estado de impaciência declarada – na minha cabeça já só aparecia a imagem de Lisboa vista da Ponte 25 de Abril – e começo a pressionar a minha mãe, “Despacha-te!”, o que a conseguiu irritar solenemente. Dez minutos depois, estava eu e ela no carro em direcção à escola. E ainda é de noite e está muito frio. E eu vou a ouvir músicas dos anos 80 na rádio e a cantar e a minha mãe não vai a ouvir nada porque está demasiado determinada em fazer-me começar o dia a ouvi-la com as “Crónicas do Levantar da Mesa”. Passo a explicar: “Crónicas do Levantar da Mesa” é uma saga, ou melhor, um programa quase diário que só se apanha com frequência sintonizada na minha vizinhança. Podia ser um programa televisivo ou radiofónico, em que a única coisa que se apreende são reclamações acerca do que a filha – eu – não ajudou a fazer, e que, pelo meio, contém sentenças de várias origens, com a devida justificação. A de hoje revelou-se um mero “Devias ter ido a pé, para não seres mal agradecida”. Mas estes episódios não ocorrem senão quando a minha mãe é submetida a pressão psicológica, geralmente da minha parte. Mas eu sou uma muito boa filha, como podem confirmar. Cheguei à porta da escola e até me esqueci de lhe pedir dinheiro!

Bom dia a todos, e queixo-me do frio e do sono e do facto de ainda ser de noite e da minha mãe ter a pujança e coragem de às seis e meia da manhã me lembrar que nem sequer a ajudei a levantar a mesa ontem. E estamos todos, e o autocarro azul-marinho da Câmara também, já com o motorista lá dentro. Imagino que este também se tenha levantado bastante contrariado por, às sete da manhã ter de conduzir uma dúzia de moços pequenos barulhentos a Lisboa.

Se eu fosse esse senhor, até me dava por contente pelo facto de eu não me ter posto a cantar e de nem sequer quase ter falado até à Ponte 25 de Abril, porque sou sem dúvida das pessoas mais barulhentas que conheço… Mas sim, passada a ponte, acabou. Aquela vista do Padrão dos Descobrimentos, das casas, dos castelos e daquela imensidão de Tejo dá-me um arrepio pelo corpo todo. Entrámos em Lisboa, passámos os semáforos e as filas todas e eu começo instantaneamente a sentir a electricidade cerebral a funcionar, especialmente quando pela primeira vez passo pela Cidade Universitária e vejo aqueles monstros que são os edifícios das faculdades. Tenho uma sensação parecida ao déjà-vu, mas ao contrário: tantas vezes pensei e repensei na minha futura vida académica!

E o senhor condutor do autocarro, semelhante a muitos outros cultos condutores de autocarros que – ponho as mão no fogo! – devem saber o caminho para todos os estádios de futebol e para todas as tabernas mais conhecidas da capital, não sabia lá muito bem onde era a Biblioteca Nacional e olhou para os edifícios da Universidade e formulou uma pergunta que, na sua cabeça, deveria ser “Qual destes mamarrachos é a Biblioteca?”, mas que, com grande esforço, saiu um “Qual é a Biblioteca?”. A professora Ana, alfacinha, usa o termo que só me lembro ter sido usado na capital, o termo descer. “Não, não é aqui. Tem de descer ali ao Campo Grande e é mais à frente…” Que ultraje Senhor Condutor!

Chegámos a Biblioteca. Saímos do autocarro e eu respirei muito fundo muitas vezes porque cheirava bem, cheirava a Lisboa. Depois de ter reparado nas dimensões e na arquitectura estonteante daquele edifício, tive dois pensamentos em simultâneo: preciso de ir à casa de banho e esta biblioteca parece um aeroporto. E realmente, pelo menos em termos de segurança, só faltavam lá os cães, porque para aceder à Biblioteca Nacional é fundamental colocar malas em cacifos que ruminam moedas de um euro. Ruminam porque a comem e depois a devolvem e, se quisermos utilizá-los de novo, temos de colocar lá de novo a moeda.

Depois de irmos à casa de banho e de a senhora guia nos ter quase ido lá buscar ao colo, iniciámos o nosso dia cultural a ver uma exposição sobre Luiz Pacheco, nome que na minha cabeça passou a existir de três horas antes quando a professora anunciou o que iríamos ver... Sim, porque me esqueci de mencionar que a professora Ana com uma certa bravura se deu ao trabalho de, às sete da manhã (o período dormente) entregar, uma folha com a sua biografia e com excertos de textos seus (que já depois da exposição vim a ler e realmente gostei muito)!

Luiz Pacheco, que entretanto reconheci pelas fotos, nasceu em 1925 em Lisboa, e foi sempre, segundo o senhor rechonchudo e de óculos exageradamente redondos que nos guiou e a minha excelente percepção, uma personalidade bastante irreverente, o que à partida me cativou logo imenso. Segundo a sua biografia, Pacheco era detentor de um enorme sentido crítico, tinha uma personalidade desconcertante, paradoxal e era “impertinentemente cínico, honesto, paradoxal e desconcertante”.

Seguindo a sua própria filosofia de vida, viveu-a sempre à margem de uma sociedade e de um regime opressor, expressando sempre os seus pontos de vista acerca das suas ideias políticas e sociais, sendo considerado um libertino... Sem nunca dispensar o seu vinho e a sua cerveja, também não se preocupa em esconder a preferência que tinha por raparigas mais novas porque consegue engravidar três adolescentes e, com tudo somado, ter oito filhos.

A sua vida profissional também nunca foi monótona porque este não o permitia. Começou por trabalhar a escrever para jornais como: O Globo, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado e em 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando por se fartar das suas funções e se demitir. Através da sua editora, fundada em 1950, a “Contraponto”, Luiz Pacheco torna-se célebre por ter publicado autores como Natália Correia, Vergílio Ferreira, Raul Leal e Herberto Hélder.

Luiz Pacheco morre em 2008, de doença súbita, deixando para trás histórias de uma vida conturbada mas, segundo o que apreendi, sempre vivida de acordo com os seus ideais, as suas escolhas, apesar de ter passado por imensas dificuldades económicas e de ter muitas vezes sobrevivido graças à caridade dos que o rodeavam.

Saí da sala da exposição com vontade de ler alguma coisa deste senhor. A ideia com que fiquei, a de um homem com uma personalidade forte, fiel a si próprio, malandro, directo e rebelde chamou-me mesmo à atenção…

Já sob a orientação de outra guia, bastante comunicativa e dinâmica, fomos esclarecidos acerca dos requisitos para se utilizar as instalações da Biblioteca Nacional, que a médio prazo não me agradam, visto que são necessários 18 anos para consulta de livros e outros documentos... E ao contrário do que acontece em bibliotecas municipais, a Biblioteca Nacional não permite aos seus utilizadores a requisição de livros e nem a consulta despropositada e injustificada de exemplares mais valiosos que são sujeitos a grandes processos de conservação e a delicado manuseamento.

Não muito longe, avistámos a livraria da Biblioteca Nacional, a Babel. E lá dentro, deparámo-nos com um dos livros, se não o livro mais caro do mundo lá exposto. Um de limitados noventa e nove exemplares. Capa de tecido vermelho e mármore, que pelo que percebi escondia desenhos de Miguel Ângelo… Claro que a nossa vontade era desrespeitar as fitas que nos impediam de tocá-lo e abri-lo e folheá-lo imediatamente. Mas lá nos contivemos. O Rúben, ficou encantado com uma edição clone do original de “A Mensagem” que custava quarenta e quatro euros… E eu contentei-me em trazer um lápis oferecido de recordação.

Posto isto, subimos umas escadas e agora a Biblioteca já não parecia um aeroporto. Parecia um hospital. Um corredor sóbrio, claro e comprido levou-nos até a uma sala que nos surpreendeu e espantou a todos. Uma sala de consulta específica para invisuais. Tivemos a oportunidade de conversar com uma funcionária invisual, a Dr.ª Hermínia, que nos explicou o seu trabalho, que é desenvolvido graças a aplicações informáticas adaptadas às limitações causadas pela cegueira. Soubemos também que numa louvável acção, a Biblioteca Nacional disponibiliza audiolivros e livros em Braille para invisuais, o que lhes permite desfrutar também, nem que de outra forma, do prazer das palavras. Este contacto com esta funcionária foi sem dúvida um dos momentos altos do nosso dia.

Despedidas feitas, continuámos a visita. A guia simpática revelou o número de livros que existem naquele edifício. São, segundo ela, aproximadamente três milhões de livros, ou seja, contas feitas, uma quantidade interminável de letras velhas e novas dentro daquelas muitas paredes e chão e andares.

Descemos novamente as escadas e dirigimo-nos ao fundo geral, uma sala de leitura que alberga calhamaços mais banais e de livre consulta. Sustive a respiração e quando passámos as portas automáticas - que mais pareciam as portas de um supermercado pela quantidade de vezes que abriam e fechavam - respirei fundo e, com o ar, respirei concentração e um incenso de cultura qualquer que por ali pairava. Aquela sala de leitura é um sítio onde vemos, ou onde eu magiquei logo ter visto futuros escritores e futuros best-sellers, munidos de lupas, cadernos e lápis a investigar séculos de história comprimidos em livros e jornais de grandes dimensões, amarelados de capas grossas e vivas. E claro, que com isso tudo, me imaginei ali perdida no tempo daqui a uns anos a ter permissão para consultar exemplares daquele calibre. E vi também pessoas já com uma certa idade – certamente reformados - que, em vez de passarem as manhãs a ver os programas triviais da televisão portuguesa, preferem dedicar-se a investir em conhecimento e passam as suas horas de tempo livre a consultar documentos antigos, quiçá a relembrar velhas notícias do seu tempo.

Andando, demos com a reprografia que actualmente está equipada com máquinas fotocopiadoras meio despidas, sem a habitual tampa, utilizada para não danificar os livros. Ficámos cientes da necessidade e da preocupação com a preservação do espólio para as gerações vindouras.

Mais à frente, vi – e fiquei tão contente por ter visto – aqueles projectores que parecem jogos de vídeo, onde através do filme de documentos de grande valor, podem consultar-se artigos de jornal e outros documentos para que não seja necessário o seu manuseamento.

Terminada a visita, são horas de almoçar. Outra coisa que me fascinou: funcionários e utilizadores da Biblioteca Nacional nem precisam de sair do edifício para se alimentar: têm a opção de comer num bar ou numa espécie de refeitório, ambos cheios de classe... Como me esqueci de pedir a minha mãe o crédito para comer, acabei por sobreviver à fome graças à minha amiga neozelandesa que me providenciou uma sandes de panado, bastante boa por sinal. Os outros, incluindo as professoras, acabaram por desfrutar de um delicioso manjar, que variava entre bacalhau à Braz e lasanha vegetariana, bem bons! Depois de estarmos de barriga cheia e de termos bebido o cafezinho, saímos do edifício da Biblioteca Nacional e tivemos tempo para conviver e partilhar ideias acerca do que acabáramos de ver.

Entrámos no autocarro. Passei por todas aquelas ruas que me encantam na cidade de Lisboa… Campo Grande, vislumbrámos o estádio de Alvalade e aí, claro, toda a gente começou a perguntar quem estava com vontade de ir à casa de banho… Entendam-me como quiserem.

Em direcção ao Lumiar, tentámos encontrar o Museu Nacional do Teatro, que é mesmo nas traseiras do Museu Nacional do Traje. Situados no Palácio Monteiro-Mor, um edifício com fachada do século XVIII, que foi restaurado e adaptado especificamente para este efeito. Actualmente, a colecção do museu, que começou a ser constituída em 1979, já apresenta perto de 250.000 peças. Estas incluem trajes e adereços de cena, cenários, figurinos, cartazes, programas, discos e partituras e cerca de 120.000 fotografias. Existe também uma biblioteca especializada com 35.000 volumes.

Não me consigo alongar nem desenvolver esta visita pela sua complexidade. Posso apenas dizer que tivemos uma guia bastante dinâmica que nos guiou pelos espaços do Museu.

Através dessa visita ficámos a conhecer melhor a história do teatro português e tivemos oportunidade de ver vestidos e figurinos magnificamente concebidos. Falando por mim, foi uma visita que enriqueceu os meus conhecimentos acerca da área da representação, uma área que me interessa bastante.

Saídos do Museu Nacional do Teatro, dirigimo-nos para a baixa lisboeta, que me encanta desde sempre, pelas ruas, pelas pessoas, pelas janelas, pela música que soa no ar… Para os mais pequeninos do grupo – sim porque eu já sou veterana nestas coisas d’”Os Maias” – passámos por locais da baixa descritos na obra.

Concluído o plano da visita, tivemos ainda tempo para dar uma espreitadela à FNAC. O meu objectivo, agora já com dinheiro na conta - graças às modernices do multibanco e à boa vontade do meu pai – era comprar um livro. Do que me fui eu lembrar… Devo ter estado cerca de meia hora a olhar para a mesma estante, na secção de “Literatura Lusófona”. Prefiro conhecer primeiro os artistas e as suas obras na minha língua… São mais desafiantes. Tive na mão livros de José Luís Peixoto, David Mourão Ferreira… E depois desse tempo todo, de já estar a transpirar por causa do calor exagerado que estava naquele sítio… Não consegui fugir ao meu destino. Acabei por levar o meu terceiro livro de Vergílio Ferreira, “Alegria Breve”.

Já de regresso e com a alma cheia de pena, lá fomos, eu e a Márcia de braço dado em direcção ao autocarro. A minha vontade era ficar em Lisboa, claro. Nem vou tecer mais comentários sobre essa cidade porque já farta, mas a culpa é mesmo do entusiasmo…

Sentia-se um cansaço geral no ar. Andámos bastante. E eu já tinha bastante fome de novo. Lá partilhámos umas bolachas uns com os outros e lá fomos enganando o estômago.

Depois, como em todos os regressos de autocarro, de música nos ouvidos, começa a festa. Eu e a Silvana (que foi ao meu lado) começámos a cantar, mas muito alto... A Laila, coitada, que me emprestou o iPod, queria dormir e duvido que tenha conseguido, fora os outros, que nem me apercebi. Eu e a Silvana estávamos demasiadamente entretidas para nos deixarmos de cantorias.

Entre música, risos, o Sporting - Benfica da Rádio Renascença – claro está, sintonizado pelo Senhor Condutor – e os roncos do meu estômago devido à fome desumana de que eu padecia, foi uma viagem de regresso bastante animada, mas sempre com a vontade de voltar à capital a qualquer momento bem presente nas nossas cabecinhas...



Fevereiro 2009

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