domingo, 28 de abril de 2019


Moira perdida pela luz foi
Teimando em continuar a viver porque
Só se vive uma vez. 

Não há mais nada.
Arriscar. Fazer. Partir. É isso que nos faz continuar a sentir.

Ser é sentir. Existir é sentir. Sem sentir não se existe por completo nem por metade.
Sustentamos o sonho e desviamos caminhos em busca de saídas. 
Breves e ligeiras ou fortes e eternas. 

O terreno concreto das coisas cobre aquilo que desejas descobrir um dia.
O terreno concreto cobre o teu corpo assim como o medo que tens se descobrires um dia. 

Não vais mais sentir. Nunca mais vais ver. Olhos serão terra ou cinza. 

Por isso sente agora.


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Ashes, I am

O céu é cinza. Cinza é o que sinto por dentro e o que sou por fora. Cor da solidão, que o meu tacto sabe de cor. A partida apresentou-nos e desde aí tornámo-nos uma coisa só. Coisa feia, desregrada, sem princípio nem fim, sem ritmo nem batida. Como nós dois fomos um dia - seres sem alma, seres sem corpo, seres sem voz. A voz calou-se há muito tempo, eras tu a criança que nunca deixaste de ser, sem motivos para crescer, como a semente que germinámos. A luz do sol não lhe chegou, nem a terra, nem a água.
Para quê crescer se o sol não vai brilhar nunca mais? A saída é ali, o que e fácil está sempre mais a jeito.

- O que é fácil aos fracos se destina, dizia alguém quando o tecto do mundo ainda era de todas as cores. O que é fácil não traz recompensa feliz. No fundo somos todos caçadores de tesouros. O que nos dá alento se não o que a vida deixa escapar sem perceber e o que tenta recuperar aflitivamente?

terça-feira, 8 de outubro de 2013

 

Queria arranjar palavras para descrever o ridículo das coisas que acontecem na minha vida

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

.

 

Letras de fumo tendem a aparecer quando existe música num cigarro.

a música propaga-se e deixa perfume.

sabes que é a verdade:

Todos parecem olhar-te.

- Eles olham, só não te vêem.

Não vêem porque há coisas que não se deixam ver.

- Palavras, há muito que não se deixavam ver também

(long time no see)

preenchidas com cor de fumo que assentou numa folha

outrora branca.

E lêem-se.

 

Lua

A luz que estava,

A música que tinhas,

Nua, com consciência

De que um dia tudo acaba.”

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Frio


A porta já não range nem há passos no corredor,
naquele chão já não.
A caneca amarela não fumega mais.
O chá já está frio, arrefeceu
A janela branca ficou aberta
mas a chuva não entra.
Ficou lá fora,
não quis estragar as tábuas
(que a água apodrece o soalho).

A chuva espera,
a chuva não se cansa.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Troncos


As folhas da minha copa esvoaçam. Afastam-se dos meus ramos, como se puxadas por cordas de fumo invisível. Não se vêem. Só se sente o levíssimo peso a deixar os meus braços de madeira, imóveis. E os meus pés que continuam raízes, colados a este chão que não respira nem engole o tempo que este vento empurra e protege como se fosse seu.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

360º

Aqui os dias são todos iguais. A vontade já não existe, nem o sol que brilha me anima. Pelo contrário, o céu embrulhado é o ideal. Casa fechada, vazia, cortinas fechadas, escuro, silêncio. Não há cheiro, não há barulho. Só ruído de quando em vez, e propositadamente imperceptível.
É Verão. Não praia, não rua, não preocupações com o cabelo ou com nada. Não.
Estás longe. A tua ausência é a pior coisa a que alguma vez já estive exposta. Felizmente, ainda fazes o meu telefone tocar de vez em quando. Se não fosse a tua t-shirt amarela com o teu cheiro o meu placebo para iludir as minhas saudades tuas… Acho que já nada seria real ou palpável.
Sou um arbusto.